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19.11.09
Também esta notícia já tem uns dias. A famosa bloguista britânica "Belle de Jour" levantou o anonimato. É (era) mesmo uma prostituta e chama-se Brooke Magnanti, 34 anos, e também é médica, doutorada em epidemologia. Deixou-me particularmente feliz que se provou falsa a convicção de comentadores com o da Sunday Times, de que atrás do anonimato se escondia um "senhor de idade com óculos de massa". Admito que estamos ainda milhas do mundo perfeito, em que havia profissionais do sexo que exerciam o seu ofício com gosto e brio, respeitados por isso pela sociedade, nem me atrevo dizer que caminhamos para ele. Mas não é apenas uma fantasia de homens. Face Oculta, casamento gay... não ficou espaço na atenção dos bloguistas portugueses para uma notícia que acho importante e interessante: Cinco presos de Guantánamo, dados como responsáveis principais pelo 11 de Setembro, serão acusados e julgados num tribunal criminal normal de Nova Iorque! Acho uma óptima notícia e será, a realizar-se, um acontecimento de grande alcance. É interessante acompanhar os argumentos e preocupações dos americanos acerca deste processo. Há quem ache péssimo que o processo dará, muito provavelmente, ocasião aos acusados de relatar o seu tratamento em Guantánamo. Todo o assunto da tortura será trazido de novo com grande impacto para a atenção mundial. Com enorme prejuízo pela imagem dos EUA no mundo, dizem. Além disso, dará oportunidade aos acusados de propagarem perante um público mundial, as suas ideias e de recrutarem novos seguidores no mundo islâmico. Obviamente, estes argumentos políticos não deviam condicionar a forma como é conduzido um processo criminal. Veremos se vai ou não. O processo também é uma oportunidade para os EUA de restabelecer a sua reputação com estado de direito. Também aqui estou curioso como conseguem aproveitá-la. 18.11.09
Desafia-me aqui - no post anterior - o JPT de instaurar um sistema de posts quinzenais. Gostaria muito, mas não creio que a minhas "inspriações" ou motivações se adaptam a um ritmo tão regular. Mas espero aumentar a frequência das minhas intervenç~eos aqui, além de regime quinzenal. Para começar deixo aqui a minha colherada no debate sobre o casamento homossexual e adopção por casais de mesmo sexo, entre João Galamba, Luis Naves e Fernanda Câncio. Está como comentário neste post do Corta-Fitas: Sou ainda muito menos do que o Luis ou a Fernanda constitucionalista. Mas sei que há quem considere a própria exclusão dos homossexuiais do casamento inconstitucional. O que me parece fazer todo o sentido. Em todo o caso, o que é, neste momento, constitucional ou não, não influencia o meu juizo sobre esta matéria que considero um assunto suficientemente fundamental para que se deve, depois de formado uma opinião sobre ele, eventualmente rever a constituição. Concordo porém com o Luis com a avaliação que é apenas coerente ligar a questão do direito a adopção ao casamento. No meu entender este deve existir para qualquer casal, homossexual ou não. Aceitar isso não lesa os direitos das crianças. Por razões óbvias, estar casado (hetero ou homo) não é condição bastante para poder adoptar. A adopção exige uma avaliação caso a caso considerando muitos critérios, em que o suprior interesse da criança deve ter prioridade. O direito constitucional à adpoção está aqui já hoje limitado, e muito bem, por outros direitos igualmente importantes. O Luis reconheceu que casais homossexuais não são à priori incapazes de educar crianças, considera apenas que o são menos, em comparação a outros. Não acompanho este juizo. Mas mesmo se assim fosse, nada está contra de reconhecer o direito de adopção, à partida, a todos os casais, e fazer a autorização da adopção depois depender de uma avaliação em concreto. Calculo que aí, se participassemos nela num caso concreto, o Luis e eu não estariamos de acordo, por avaliar, no meio de muitos aspectos, de forma diferente a questão de os candidatos serem de sexo diferente ou não. Mas dando de barato que a discussão sobre o impacto de ser casal homossexual na função parental não acabaria, seria assim sempre possível assegurar o interesse da criança em primeiro lugar: Decidir, perante as opções disponíveis, a propostas concretas de adopção, a disponibilidade de casais homossexuais, heterossexuais, pessoas solteiras, familiares, a institucionalização: qual é a melhor solução para a criança? E não havia uma discriminação genérica, com fundameto na orientação sexual. 27.10.09
Gosto das crónicas de João Miguel Tavares no DN. Costumam ter graça - as vezes muita graça - e de ser inteligentes. Tanto mais admirou-me a crónica de hoje, em que comenta a tirada de Saramago sobre a Bíblia como "Manual dos maus costumes". Diz J.M. Tavares que Saramago, por ser ateu, não pode fazer tal afirmação. "Só quem acredita que a Bíblia tem alguma relação com a palavra de Deus está habilitado para sobre ela fazer considerações éticas. Eu preciso de ter fé para acreditar que naquele livro está não só um conjunto de palavras mas uma série de regras que eu imponho à minha vida." Ora isto é um disparate inexplicável de ouvir de uma pessoa com dois dedos de testa. Inexplicável, embora recorrente em pessoas que defendem a Bíblia contra os seus críticos, muitas destas curiosamente as mesmas que não se cansam de lamentar, noutras ocasiões, o alegado relativismo moral vigente na nossa sociedade moderna. J.M. Tavares admite que as regras constantes na Bíblia são vinculativas apenas para os seus crentes. Eu também. Presumo que dá o mesmo como válido para os "manuais" e doutrinas de outras religiões. Eu dou. Agora, se assim fosse, o que JMT está a postular é que todos que não partilham da respectiva crença, "não estão habilitados" e deviam abster-se de juizos de valor sobre as respectivas doutrinas. Ou seja, de ter opinião sobre a poligamia dos mormones, o papel da mulher na religião islâmica, a incineração das viuvas no hinduismo ou até do sacrifício humano, no caso hipotético de o culto dos Aztecas tivesse sobrevivido até aos nossos dias. Admito que o meu relativismo não vai tão longe. Tenho um palpite que o de João Miguel Tavares também não. Que, na realidade, so quer a imunidade a críticas para a religião cristã e talvez outros cultos actuais cuja prática não colide seriamente com o seu sistema de valores. À própria polémica da tirada de Saramago tenho pouco de original a acrescentar. Só um ignorante total, ou uma pessoa que não partilha o núcleo dos nossos valores ocidentais de hoje (valorização da vida humana, igualdade das mulheres, proibição da tortura e da pena de morte, proibição da escravatura, da discriminação racial, religiosa etc.) pode negar que a Bíblia é um manual até bastante completo dos maus costumes. E, de facto, muitos cristãos crentes, teólogos e outros, não negam isso. Dirão, o que é verdade e que Saramago omitiu - ou talvez antes não ele mas a comunicação social que se centrou neste "soundbyte" em detrimento do seu enquadramento -, que a Bíblia é muito mais do que um "manual dos maus costumes", pois também e um dos bons costumes. E é também e antes de mais, o livro mais influente de todos os tempos e que enformou a nossa cultura, a maneira como hoje encaramos as questões sociais e também morais. Felizmente evoluímos, pelo menos nas nossas sociedades ocidentais, já muito longe desta sociedade atávica que é representada e defendida no Velho e também - uma verdade que teólogos mais modernos gostam de esconder ou menorizar - no Novo Testamento. Mas temos nela a nossa origem. Muitos lamentaram o grande burburinho que as declarações de Saramago levantaram. Ao contrário da maioria destes não atiro as culpas a Saramago. Ele não só exerceu o seu direito, fez mesmo muito bem em promover o seu livro, usando frases sintéticas e com punchline. As reacções violentas e irracionais dão lhe razão: Em Portugal se está ainda muito longe de ser capaz de lidar com críticas a religião católica de forma racional e tolerante. Até colunistas inteligentes e habitualmente lúcidos não são excepção. 10.10.09
Podia ter-me poupado o post de ontem, se me tivesse ocorrido a frase que li no SPIEGEL: Obama recebeu o Nobel por não ser G.W.Bush. 9.10.09
A surpresa do primeiro momento passou-me rapidamente. À segunda vista é impossível não reparar em que este candidato era, de longe, o mais fácil. Toda a gente aplaudirá. Por isso mesmo, a atribuição deste prémio arrisca-se de ser da mais arrebatadora ineficácia. Embora goste de Obama e deposito grandes esperanças no seu governo, não encontro razões de lhe atribuir, nesta altura, o Prémio Nobel da Paz. Boas razões seriam: Dar visibilidade aos protagonistas de uma causa da paz, destacando o seu exemplo. Eventualmente aproveitando o efeito de assim proteger a causa e os seus protagonistas da perseguição. Era o caso de Andrej Sacharov, Rigoberta Menchú, Aun San Suu Kyi e muitos outros. Obviamente não é o caso de Obama. Admito, embora me custe, que se atribua o Nobel da Paz com o objectivo de promover processos políticos da paz. Muitos destes prémios são, porém, vergonhosos do ponto de vista moral, pensando no currículo dos premiados. Por exemplo: Kissinger/Le Duc Tho, Sadat/Begin, Arafat/Rabin/Peres, deKlerk/Mandela. Há aqui premiados que antes deveriam ter comparecido perante um tribunal internacional. Mas há, nesta categoria, também casos de inequívoco mérito individual: Brandt, Gorbatchev, Mandela... Claro que Obama, em 2009, também não encaixa nesta categoria. Resta a razão talvez mais genuína do prémio Nobel da Paz: Reconhecer o esforço de uma vida por essa causa. Haverá quem ache que chegar a Presidente dos EUA como primeiro negro é suficiente? Sem dúvida é um feito histórico de grande importância, mas parece-me mal premiar alguém pela simples ascensão na carreira. Antes seria o eleitorado dos EUA que o escolheu, a merecer o prémio. Se esse eleitorado não tivesse também eleito duas vezes G.W. Bush... Desde que chegou ao poder, teve menos de um ano para pôr em prática as suas ideias. Cedo demais para um balanço, e mesmo a julgar pelo seu programa e pelas suas intenções, estes por si só não merecem Prémio Nobel algum. Não é o seu conteúdo, de resto nada inédito, que fez o mundo suspirar de alívio e que o levará a aplaudir unanimamente a este prémio. É apenas o realmente flagrante contraste com a moral e prática política do seu antecessor. No caso de um(a) ou outr@ velh@ amig@ reparar nestes posts, peço que não entusiasmem. Duvido que seria um regresse sustentável. Em todo o caso, ficam aqui as minhas desculpas para comentários e mails não respondidos. 3.7.09
Quando eu era menino, o meu pai tinha, como designer da indústria téxtil de Wuppertal, a tarefa algo questionável de conceber as fardas das forças armadas de diversas Repúblicas de Bananas, e contou-me o que observou: Quanto mais pindéricos e indignos os regimes, mais exuberante tinha de ser a simbologia do poder e da dignidade. Alguém que reclama, com énfase, a honra ou a dignidade, revela não estar muito seguro delas, e que parece acreditar que ela depende do reconheciento por terceiros. Triste e pobre conceito de honra, esse. De facto, confunde-a com prestígio. Enquanto prestígio depende de facto de terceiros, uma pessoa com uma noção séria de honra e dignidade sabe que esta depende, na sua forma mais pura, dela própria e de mais nada. Concedo que a dignidade de uma pessoa e de uma instituição não são a mesma coisa: a dignidade de uma instituição realmente não existe sem reconhecimento de fora. Mesmo assim, o empenho dos seus representantes na defesa dos seus símbolos denuncia também aqui a falta de confiança em que esta consiga assegurar o seu prestígio por razões melhores, por exemplo de as merecer pela sua qualidade, pela sua substância. Vem isto à propósito do caso Manuel Pinho. A expedita demissão do ministro, pelo seu gesto de cornos no parlamento, fez-me sentir outra vez, mesmo depois de dezasseis anos, estrangeiro em Portugal. Não que defenda que os ministros, mesmo no parlamento, abusassem de linguagem vernacular ou de gestos ofensivos, mas que um deslize como o em causa possa motivar a sua demissão, ainda por cima unanimamentemente tida por inevitável, afigura-se para mim uma grave e preocupante distorção da ordem dos valores e prioridades. Como um ministro exerce o seu cargo, tem impacto sobre a vida de milhões. A sua performance com vistas neste impacto, deve ser critério se se mantem em funções ou não. Não em que gesto faz num momento infeliz ou noutro, seja no parlamento ou otro lugar qualquer. 1.7.09
![]() Pina Bausch 1940-2009 13.6.09
Teheran 13 de Junho de 2009 30.5.09
O uso, pelo Vital Moreira, do caso BPN na campanha é foleira e saír-lhe-á pela culatra. Primeiro, porque se pergunta o que isso tem a ver com as eleições europeias? Segundo porque toda a gente sabe que, no que respeita a ex-políticos a aproveitarem os seus contactos nos grandes negócios, o PS não fica nada a dever ao PSD. Que o actual escândalo envolve pessoas destacadas do PSD e não do PS, é apenas um acaso. Mas quanto aos factos, VM não deixa de ter razão: O caso BPN compreende uma roubalheira e é de gentalha do PSD. E os crimes que aparentemente foram cometidos, não apareceram neste ambiente como uma criança no ventre de uma virgem. 27.5.09
Já é um bocadinho tarde para me meter nesta conversa, mas faço-o porque umas bloguistas que muito prezo também ainda estão nela e, desta vez, não concordo com elas. Ou só concordo em parte. De todo o que a professora de Espinho disse só uma coisa me revoltou logo, aquela que não tem a ver com sexo: a ameaça de usar as notas da menina como arma no conflito. Isso é verdadeiramente imperdoável e devia bastar para que a professora não volte a dar aulas e avaliar miudos. A conversa de cariz sexual, de acordo com o que chegamos a saber pela comunicação social, também é uma falha ética grave, mas parece-me um pouco menor. Não é a própria referência ao sexo o problema, nem a linguagem foleira, mas o seu uso como instrumento de exercício de poder. A professora explora a insegurança - natural, nesta idade - dos alunos em relação a sexualidade, para se impôr e, pior, como dispositivo de "bonding", pois é evidente que a conversa, se por um lado pode perturbar os jovens, por outro lado também as fascinará. (Sabe-se-lá se a boa fama que a professora aparentemente goza junto de outr@s alun@s não resulta deste "bonding"?) O jogo da professora nesta ambiguidade é um abuso comparável a um assédio físico. Mas não vale a pena alongar-me nestes aspectos, pois ninguém defendeu o comportamento da profesora. As minhas amigas escandaliza a "bufaria". Honestamente, a mim não. Ou só muito pouco. Não tenho tanto a certeza que a DREN funcione bem nestes casos, como a Maria diz. O problema começa antes, com o provar dos factos, e a minha experiência com as escolas em Lisboa tem sido péssima. Tive o problema de que o meu filho de 7 anos e os seus colegas de turma foram ameçadas sistematicamente, pela professora, de reguadas caso que não se comportassem bem. A nossa queixa, primeiro ao nível da própria escola, resultou num cerrar das fileiras do pessoal docente, inclusivé da direcção e do psicólogo da escola, contra os pais. É verdade que, mesmo assim, não me imagino colocar uma wire no meu filho, em circunstância que for. Provavelmente teria tirado antes o meu filho da respectiva escola, se outras diligêrncias de acabar com o problema não resultassem. Foi o que fiz no meu caso. Resolvi o problema, mas apenas para o meu filho, o que não é muito satisfatório. A "wire" é muito baixo, é verdade, mas não quero excluir a partida, desconhecendo os pormenores do caso e a viabilidade de alternativas, o atenuante da "legitima defesa". Em todo o caso, o assunto muito mais grave grave é o comportamento da professra. No aspecto da "wire", o caso tem semelhanças com o do telemóvel na Escola Carolina Michaelis. A disponibilidade generalizada da tecnologia de comunicação para o cidadão comum, por um lado, e a falta de escrúpulos e a impunidade dos meios de comunicação, por outro, permitem que qualquer caso que tem a sua importância, mas apenas particular ou local e que deveria ser resolvido neste âmbito e só nele, pode passar num instante à notícia nacional com efeitos nefastos e desproporcionais para qualquer um dos envolvidos. Daí, completamente de acordo: é uma vergonha que o caso passou na TV, ainda mais com a identificação (posterior, mas com a inevitabilidade evidente para todos) das pessoas. Resumindo: problemas da sala de aula não são objecto adequado da praça pública. Mas dizer isso não significa que se deva manter as portas das salas de aula fechadas e continuar a manter tudo o que se passa atrás delas, no sigilo. Uma aula de uma Escola Básica ou de Liceu não é uma consulta médica. Nem psiquiátrica. É - devia ser - uma coisa pública, não disponível, como disse, para a comunicação social, mas pública sim para a comunidade a que diz respeito. Ou seja, à escola, aos outros professores, aos pais e às entidades às quais cabe assegurar o funcionamento correcto da instituição. Para o professor é o lugar de trabalho, não vejo argumento nenhum para que a sua performance nele não deveria ser objecto de escrutínio. Para os alunos é um espaço de trabalho também. Nele já se encontram sob o escrutínio do professor, não lhes faria mal nenhum se o seu não fosse o único e deixava de ser inapelável. Gravações secretas são inaceitáveis, mas se se chegasse a gravar as aulas num CCTV, isso não me chocava, desde que se assegurasse que as gravações não caiam em mãos indevidas. 13.5.09
UE multa Intel com 1,06 mil milhões de Euros por violação das leis anti-trust. 5.5.09
2.5.09
Mas tenho o privilégio que, no meu caso, as pessoas geralmente perdoam porque atribuem estes mesmos defeitos - enganadamente, porventura - a minha condição de estrangeiro. Sem querer diminuir a repulsa que uma coisa dessas provoca, não achas, Isabela, que fechar por isso o blogue sabe a capitulação? Tenta vê-lo com distância (mais fácil para mim, eu sei): Que peso pode ter, no espaço de comunicação que partilhamos, a citação de alguns dos seus posts num contexto e para fins asquerosos comparado com o fim do Mundo Perfeito? - Pois. Adenda: Aqui está o novo blogue da Isabela. 30.4.09
Nada mais deprimente do que lembrar o futuro do passado. 29.4.09
Hoje é quarta-feira, e em tempos idos do QeP seria dia de playmate. Em vez de postar uma obra de arte visual, cito hoje a Rita que é a bloguista mais sexy que conheço, sem precisar para isso de acordar assim ou assado, ou de outros dispositivos menos verosímeis. Permite as vezes vislumbres, ao mesmo tempo discretos e cândidos, como este: «Tenho uns collants novos fantásticos. Só custaram dois euros e não consigo parar de cruzar e descruzar as pernas.» Robert Plant / Alison Krauss: "Polly come home" (Raising Sand) 28.4.09
![]() De facto, triste é onde chegámos na relação entre governo e governados! Jornalistas faltam ao respeito, noticiam o que lhes apetece, sem consideração pelo interesse do noticiado, perguntam o que lhes dá na gana... Mas nunca deve desistir-se do esforço de corrigir o que precisa de ser corrigido. E o nosso Primeiro Ministro não desiste. Insiste na pedagogia, aposta no exemplo pela positiva. Veja-se esta imagem no seu blogue. Vejam os jovens, mas também os adultos escutar, de lápis na mão, o governante sorridente: prontos para guardar em papel as palavras que merecem não cair no esquecimento ou em desconsideração. E notem como este documento fotográfico nos transmite a harmonia e felicidade que emana desta postura correcta que tanta nos faz falta. 27.4.09
Para que não haja dúvidas, aqui sou muito melhor tratado do que o Ísidor, mas as reacções a minha presença intermitente aqui, os quais deveriam servir de exemplo a sua esposa, lembraram-me desta história de Max Frisch, do seu muito recomendável romance Stiller: «Ísidor era farmaceutico, um homem responsável portanto, que não ganhava mal com isso, pai de várias crianças e um homem nos seus melhores anos, e não é preciso realçar que Isidor era um marido fiel. Mesmo assim, não aturava que lhe perguntassem sempre onde tenha andado: Com isto podia passar-se, passar-se interiormente, para fora não deixava transparecer nada. [...] Num verão fizeram, como era moda na altura, uma viagem a Mallorca, e salvo as perguntas constantes dela, que o irritavam em surdina, estava tudo a correr na melhor das maneiras. Ísidor podia ser de uma ternura muito grande, quando tinha férias [...] O Mediterrâneo brilhava como num cartaz. Para a irritação surda da sua mulher, que já se encontrava no vapor a Mallorca, Isidor teve de comprar, no último momento, ainda um jornal. [...] Por mera teimosia, como disse, absorveu-se [no jornal], e quando a esposa realmente viajava para a Mallorca pitoresca, Ísidor encontrou-se, quando finalmente levantou os olhos do jornal, não ao lado da sua esposa mas num cargueiro bastante sujo, a abarrotar com homens de farda amarela, que também zarpava neste momento. [...] A fortaleza amarela, onde Ísidor foi educado para ser homem, ficava isolado no deserto, cujos por-do-sol aprendeu a apreciar. É verdade que de vez em quando pensava na sua esposa, quando não estava simplesmente cansado de mais, e possivelmente até lhe teria escrito, mas escrever não era permitido. [...] Esqueceu a sua farmácia, compreende-se, como outros os seus passados criminosos. Com o tempo Ísidor até perdeu as saudades, [...] e foi por simples cortesia quando - muitos anos depois - Ísidor atravessou numa bela manhã o portão do quintal, barbudo, magro como estava agora, o capacete colonial debaixo do braço, para que os vizinhos da sua moradia que há muito o contavam entre os mortos, não se assustassem com o seu traje deveras invulgar, obviamente tinha também cinto com pistola... Era uma manhã de domingo, dia de anos da sua esposa que, como já referi, amava, mesmo se não escreveu, estes anos todos, nem um postal. Por um instante, [...] a mão no portão que não estava oleado e chiava como sempre, hesitou. Cinco crianças, todas não sem parecença com ele, mas crescidas em sete anos, gritavam já ao longe: o papá! Não havia volta atrás. E Ísidor passou em frente como homem que chegou a ser em duros combates e com a esperança que a sua querida esposa, caso estivesse em casa, não lhe pedisse contas. Deambulava no relvado como se voltasse, qual habitualmente, da farmácia e não de África e de Indochina. A esposa estava sem palavras, sentada debaixo do chapeu do sol. [...] As crianças ficavam felizes por poder brincar com o capacete, o que naturalmente não passava sem brigas, e quando veio o café fresco, era o idílio perfeito, domingo de manhã, com tocar dos sinos e bolo de anos. O que queria Isidor mais? Sem prestar atenção à criada que ainda estava a pôr a mesa, Isidor pegou na sua esposa. "Ísidor!" disse ela, e estava incapaz de servir o café, assim que o visitante barbudo teve de fazer-lo ele próprio. "O quê?" disse ele com ternura, enquanto serviu café também a ela. "Isidor" disse ela e estava a beira das lágrimas. Ele abraçou-a. Ísidor!" perguntou ela, "onde estiveste o tempo todo?" O homem, por um momento estupefacto, pôs a chávena; simplesmente já não estava habituado a estar casado, e pôs-se a frente de uma roseira, as mãos nos bolsos. "Porquê nunca escreveste sequer um postal?" perguntou ela. Em resposta tirou o capacete às crianças espantadas, colocou-o, com um geste preciso e rotineiro, na própria cabeça, o que alegadamente lhes deixou uma memória indelével para toda a sua vida, papá com capacete e pistola, não só genuinos, mas até visivelmente algo gastos pelo uso, e quando a esposa disse: "Sabes, Ísidor, realmente, isto não devias ter feito!" bastava a Isidor do retorno feliz, puxou (com o gesto preciso da rotina, creio) a pistola do cinto e deu três tiros no meio do bolo mole, ainda não tocado e decorado com chantilly, o que provocou, como se pode imaginar, uma porcaria apreciável. "Então Ísidor!" gritou a esposa, porque o seu ropão estava todo salpicado de chantilly, pois, e se não tivesse havido as crianças inocentes como testemunhas, teria tomado toda esta visita que mal deve ter demorada mais de dez minutos, por uma alucianção. Cercada pelos seus cinco filhos, a parecer uma Niobe, apenas viu como o seu marido, o irresponsável, saiu com passos descontraídos do portão, na cabeça o impossível capacete colonial. [...] Uma resposta, onde o papá passou o resto da sua vida em terra, nunca chegou. Nem um postal. Mamã também não quis que as crianças perguntassem; ela também nunca pôde perguntar ao papá...» 26.4.09
Um abraço pela saudação tão calorosa da volta do QeP, por bloguista tão ilustre. Não sou português nem católico. Sei que há quem ache que por isso não teria direito de comentar a canonização de Nuno Álvares Pereira. O que seria uma boa razão para fazer-lo. Mas a verdade é que sei demasiado pouco dele. Porém posso dizer que vejo a apropriação patriótica desta canonização com pouca simpatia ou paciência. Os méritos do Santo Condestável a parte, ainda não perdi, mesmo depois de anos, o meu espanto antropológico perante instituições como a Congregação dos Santos e o aparato burocrático com que esta "confirma cientificamente" - ao que consta até com recurso a médicos ateus! - as necessárias milagres. Esta pequena entrevista no DN dá um vislumbre do rigor e da minúcia com que a Santa Sé trata desta questão; e não me passa pela cabeça de duvidar deles. Não acredito em milagres, e menos ainda nos veredictos de burocracias eclesiásticas, da ICAR ou doutras; mas acredito em santos. Alguns são do calendário, outros professaram outras fés, e ainda outros foram ateus. Têm em comum que deram, através da sua vida e dos seus actos, testemunho de uma força e de uma humanidade que só pude advir da fé em algo maior do que a própria pessoa ou seus mais próximos. Para mim, agnóstico, eles são a prova, a única prova da existência de Deus. Irene Sendler, por exemplo. Há quem ache que a sua santidade depende de encontrar duas pessoas que graças a ela se livraram das úlceras ou de coisa semelhante. Eu não. 24.4.09
clicar a lista dos links do QeP e ver quais blogues ainda mexem e quais não. 23.4.09
Esta canção é da tour de Raising Sand de Plant/Krauss. Embora não está no disco Raising Sand que ganhou, justamente, uma série de grammys em Fevereiro deste ano. Uma colaboração entre uma cantora de bluegrass que não conheci - Alison Krauss - com o velho frontman dos Led Zeppelin. Durante anos, tenho andado a evitar ouvir que este faz depois do fim dos Zeppelin. Mal, como agora sei. O homem, ao contrário dos Jagger & Co. não se tem limitado a requentar sucessos passados, tentou fazer outras coisas, umas menos conseguidos, outras, como esta, excelentes. 22.4.09
Não sei se com muita assiduidade ou até vigor, mas estou. Obrigado a todos que têm insistido em visitar este lugar, apesar das repetidas desilusões. E Sorry! Como não fosse já demais para mim alimentar o blogue, aderi finalmente ao Twitter. Não sei se isto vai dar alguma coisa comigo. Veremos: http://twitter.com/bruckelmann 10.12.08
![]() Mondfrauen (Otto Schatz) 6.12.08
Há semanas decretei que o Cachimbo de Magritte já não merecia respeito, veredicto irritado e - já sabia-o na altura - injusto para um ou outro dos membros deste blogue colectivo. Não ficaria bem comigo se não destacasse hoje a frontalidade e o sentido moral de Carlos Botelho, que não diminuem de acordo com a proximidade política ou não que tem com os visados. Quanto ao caso em si, interessa reforçar a distinção que o Carlos tentou explicar. Se é verdade que as razões de quem foi vítima de atrocidades não merecem por isso mais respeito, a pessoa da vítima porém merece! Merece ser poupado de insultos que colocam o eventual aproveitamento do estatuto de vítima acima ou ao mesmo nível como os crimes que sofreu. Esta elementar noção moral e da boa educação parece faltar a quem por razões geracionais ou sociológicas perdeu a consciência do que foi a perseguição política numa ditadura. |
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